Somos um País muito endividado?

Imagine que após anos de trabalho duro, exaustiva dedicação, árduo esforço e constante disciplina financeira, você consiga acumular algum dinheiro. Suponha algo em torno de R$ 100 mil, talvez seja muito para alguns e pouco para outros. Mas o que importa é que esse dinheiro foi você que o obteve através do seu próprio esforço, é um dinheiro justo e merecido, o qual você valoriza e protege.

Agora suponha que um conhecido seu, que não está no seu círculo mais próximo de amizade, lhe peça emprestado R$ 100 mil. Você emprestaria?

Dúvida cruel, difícil decisão… Certamente você não vai emprestar de graça, algum retorno você tem de obter. Afinal, você arriscaria perder de graça todo o seu capital acumulado durante anos para um mero conhecido? Claro que não. Portanto, duas questões serão cruciais para a sua tomada de decisão: (i) qual será a taxa de juros que você irá obter com esse empréstimo e (ii) esse conhecido possui capacidade financeira para te pagar de volta?

Nesse artigo vamos focar na segunda questão: como medir a capacidade de pagamento de um devedor? Independentemente da taxa de juros cobrada, você não irá emprestar seu dinheiro se tem certeza que o conhecido não irá te pagar de volta. Portanto, é crucial avaliar a capacidade financeira de repagamento do sujeito. A análise de crédito de um devedor é, em última instância, uma questão subjetiva. Dependerá de diversos fatores não mensuráveis, como, por exemplo, a idoneidade moral do devedor, seus rendimentos e riquezas futuras, a relação de amizade (ou inimizade) entre vocês dois, entre outros fatores para os quais não existe uma métrica exata de cálculo. Contudo, embora não sejam suficientes para prever com 100% de acurácia se o conhecido irá pagar ou não, alguns índices podem ajudar de forma eficaz e prover importantes pistas para a avaliação de crédito do devedor.

Um índice fácil de entender e bastante comum é a razão entre o valor da dívida e o salário dos últimos anos. Por exemplo, (pelo menos em um primeiro momento) é plausível pensar que se esse conhecido recebe R$ 1 milhão ao ano, a chance dele te pagar de volta é maior do que se ele recebesse apenas R$ 50 mil ao ano. Afinal, o valor da dívida é de R$ 100 mil, apenas 0,1x o salário do conhecido no primeiro caso e 2,0x superior ao do segundo caso.

No mercado de títulos soberanos de dívida bilionárias e até trilionárias de países, a lógica funciona da mesma forma. Investidores globais não emprestam para países a beira da falência, e quanto pior a situação fiscal de determinado país, mais alta é a taxa de juros cobrada pelo empréstimo. A métrica Dívida/Salário no caso de pessoas físicas é análoga à métrica Dívida/Arrecadação no caso de países. Um país que deve R$ 100 milhões, mas arrecada R$ 1 bilhão ao ano por meio de tributos é (pelo menos em um primeiro momento) mais “seguro” que um país que deve R$ 100 milhões e arrecada apenas R$ 50 milhões ao ano. Correto? Ou não?

Vejamos como está o Brasil nessa métrica, a tabela abaixo mostra a razão Dívida/Arrecadação de cada país nos últimos três anos:

Obs: Países emergentes em negrito.

Fonte: Fundo Monetário Internacional (código Bloomberg IGS%*** e GGR%***) 

Observe que por essa métrica o Brasil é o mais arriscado dentre os países emergentes e o terceiro mais arriscado dentre todos os países da amostra. Bom, mas mesmo assim, somos bem melhores que o Japão e EUA, correto?

Não exatamente. De nada adianta seu conhecido receber R$ 1 milhão por ano se ele gasta R$ 1,1 milhão no mesmo período de tempo. Se ele gasta todo o dinheiro que recebe, como ele irá te pagar de volta? Nesse caso, é melhor emprestar para alguém que recebe R$ 50 mil ao ano e gasta apenas R$ 10 mil, dessa forma ele tem R$ 40 mil sobrando todo o ano e ao final de três ou quatro anos ele terá recursos suficientes para te pagar de volta, dependendo da taxa de juros que você cobrar.

Vamos, portanto, analisar qual foi o déficit que cada país teve ao longo dos últimos três anos. Isto é, a arrecadação total menos a despesa total. Países que possuem déficits menores ou superávits, tendem a possuir uma capacidade financeira de pagamento da dívida melhor:

Obs: Países emergentes em negrito.

Fonte: Trading Economics

Agora nosso problema ficou mais evidente. Ao analisar o déficit percebemos que somos o pior disparado, gastamos muito mais do que arrecadamos. Em 2017, o governo Brasileiro arrecadou R$ 2,0 trilhões e gastou o equivalente a R$ 2,5 trilhões. Implicando em um déficit de R$ 0,5 trilhão, o que representa 7,8% do nosso PIB de R$ 6,6 trilhões.

Outra métrica muito utilizada para medir o endividamento dos países é a razão Dívida/PIB. O PIB é a soma dos valores de todos os bens e serviços produzidos no país em determinado período de tempo.

Países que possuem uma métrica Dívida/Arrecadação alta, mas possuem um nível de Arrecadação/PIB baixo, podem controlar sua dívida mais facilmente, pois basta aumentar a alíquota de imposto para obter mais recursos para pagamento da dívida. Agora, países que já possuem uma Arrecadação/PIB alta podem enfrentar dificuldades políticas para aumentar a alíquota tributária, restando somente a redução de gastos para controle da dívida. A tabela abaixo resume essa situação para cada país.

Obs: Países emergentes em negrito.

Fonte: FMI.

*O valor da dívida bruta brasileira em 2017 reportado pelo FMI de 84% difere do valor que normalmente aparece na mídia apurado pelo Banco Central de 74%. Isso se deve a diferenças metodológicas entre as instituições. De qualquer forma, isso não prejudica a análise de comparação entre países aqui realizada).

Ao comparar o Brasil com os outros países emergentes, percebemos somos o mais endividado pela métrica Dívida/Arrecadação com índice de 2,8x, o México está na segunda posição com índice de 2,2x. Mas deve-se ressaltar que o México possui um índice Arrecadação/PIB de 25%. Muito abaixo de nós, que estamos com esse índice em 30%. Portanto, é muito mais fácil para o governo do México aumentar sua alíquota de imposto e incrementar sua arrecadação do que para o governo brasileiro, que já é demasiadamente criticado por possuir uma tributação excessiva para o nível de países emergentes.

Dado que somos o país mais endividado do mundo emergente no quesito Dívida/Arrecadação e possuímos um dos governos que mais arrecada em relação ao PIB, não é de surpreender que possuímos o maior nível de Dívida/PIB entre todos os países emergentes. Nosso índice é de 84%, muito superior ao do México, segundo maior com 54%. Um dado assustador se refere ao crescimento desse índice no último três anos: entre 2015 e 2017 a nossa Dívida/PIB cresceu 11 p.p.. Nenhum país, desenvolvido ou não, apresentou crescimento tão elevado da dívida em período de tempo tão curto.

Contudo, quando comparamos nossa razão Dívida/PIB com a dos países desenvolvidos, chegamos à conclusão de que não somos tão endividados assim. Afinal, os EUA possuem uma razão Dívida/PIB de 108% e o Japão de 236%. Portanto, nós ainda podemos aumentar muita nossa dívida, correto? Não precisamos de nos preocupar com endividamento, dado que os países desenvolvidos são muito mais alavancados do que nós. Aumente os gastos e reduza os impostos!

Infelizmente não funciona assim… Esses países são muito mais confiáveis do que nós. Ao longo da história, os países desenvolvidos mostraram-se muito mais fiscalmente responsáveis do que a maioria dos países emergentes, permitindo que adquirissem a reputação de “bons pagadores”, enquanto nós não tivemos ainda a oportunidade de entrar nesse restrito clube. A tabela abaixo mostra o número de calotes na dívida de cada país desde 1950.

Obs: Países emergentes em negrito.

Fonte: Informações retiradas do livro “Oito Séculos de Delírios Financeiros – Desta vez é diferente” dos autores Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart.

Observe que Peru e Chile, os dois países mais caloteiros da amostra, possuem um nível de dívida atual muito inferior ao do Brasil (Dívida/PIB em torno de 25%, enquanto o mesmo indicador para o Brasil é de 84%). Nosso país é o terceiro maior caloteiro da amostra e continuamos sendo o país mais endividado do mundo emergente.

Os países desenvolvidos, embora possuam uma dívida maior em relação à sua arrecadação e seu PIB, mostraram ao longo da história uma melhor gestão em suas finanças públicas, sempre honrando os compromissos acordados. Diferentemente de nós.

Você emprestaria seus R$ 100 mil para um sujeito que já deu diversos calotes na comunidade? Ou você preferiria emprestar seu dinheiro para um outro sujeito que nunca deu calote, mesmo que esse último possua uma dívida maior?

Outro fator se refere ao nível de riqueza de cada país. Os países desenvolvidos são muito mais ricos do que os emergentes. No início do texto falamos muito sobre o salário de seu conhecido, mas não falamos nada sobre o nível de riqueza que ele possui.

Imagine que agora você está em dúvida entre emprestar os seus R$ 100 mil para um sujeito que possui um salário de R$ 500 mil ao ano e um patrimônio de R$ 10 milhões (formado por imóveis, ações, automóveis, joias, etc), e um outro sujeito que possui um salário de R$ 1 milhão ao ano, mas cujo patrimônio é de apenas R$ 50 mil, já que ele gasta quase tudo o que arrecada.

Certamente é mais seguro emprestar para o primeiro sujeito. Se no ano seguinte ele perder o emprego, ele pode vender alguns imóveis e te pagar. No segundo caso é menos provável que ele tenha recursos suficientes para pagar a dívida.

Em geral, os países emergentes possuem uma riqueza total por volta de 2x superior ao PIB e os países desenvolvidos possuem essa mesma razão em torno de 5x. Portanto, os segundos possuem muito mais recursos para financiar a dívida pública que os primeiros. A tabela abaixo compara a razão Dívida/Riqueza de cada país:

Obs: Países emergentes em negrito.

Fonte: Dados de riqueza foram obtidos no relatório Global Wealth Report do Credit Suisse.

Somos o país mais endividado da amostra em relação a nossa riqueza, nosso índice é de 65%. Dois terços da riqueza do nosso país é utilizada para financiar o governo. O México, segundo país emergente mais endividado da amostra nesse quesito, possui um índice de apenas 31%, 34 p.p. abaixo de nós. É verdade que o Japão também possui uma métrica Dívida/Riqueza elevada, porém, ainda assim, muito abaixo do Brasil. E, além disso, seu histórico de 75 anos sem calote o tornou um país muito mais confiável do que o nosso e demais emergentes.

Conclusão:

Como se não bastasse o fato de sermos um caloteiro histórico, insistimos em manter nossa dívida em um patamar demasiadamente elevado. Somos o país mais endividado do mundo em relação a nossa riqueza e o país emergente com a maior dívida em relação ao PIB. Além disso, gastamos muito mais do que arrecadamos e nosso déficit fiscal foi o maior da amostra em todos os anos analisados.

Portanto, é de extrema necessidade que o nosso governo foque em reduzir os gastos, passe a gastar menos do que arrecada e coloque nossa dívida pública em trajetória de queda. Somente assim, após um longo período de tempo, poderemos, quem sabe, entrar no seleto clube de “bons pagadores”.