Segurança se faz com pé no chão

Não é necessário dedicar uma vida de estudos ao tema da segurança para que se perceba que a agenda brasileira é frequentemente dominada pelo debate de grandes paradigmas. Mesmo o observador mais casual, por certo, já se deparou com conceitos como “ciclo completo”, “desmilitarização”, “unificação das polícias”, dentre outros. Se por um lado a análise dessas categorias acaba por enriquecer nosso patrimônio teórico, por outro faz sombra a outros temas mais urgentes e de natureza mais prática, os quais, caso não sejam solucionados, tornam-se impeditivos da implementação de estratégias mais abrangentes. Vamos, assim, discutindo o que gostaríamos de ser, sem saber ao certo o que, verdadeiramente somos, mesmo que esteja, entre uma coisa e outra, o nosso maior desafio.

Para ilustrar esse pensamento, tomemos, por exemplo, uma recomendação unânime e, contra a qual, não é razoável se opor. Os operadores de segurança precisam de treinamento e educação continuados, repetem sempre os especialistas. Suponhamos agora, que o Secretário de Segurança, digamos, do Rio de Janeiro, tome para si essa diretriz como prioridade número um de sua gestão. Se assim proceder, nosso secretário hipotético irá constatar, para sua infelicidade, que parcela não desprezível do efetivo policial sob seu comando desempenha suas funções em escalas do tipo 24x72h ou 12hx48h, circunstância que imporá a ele a seguinte problemática: “a que horas nossos servidores poderão estar em sala de aula?”. O mesmo poderia ser dito sobre os clamores por mais inteligência policial, os quais ignoram a carência de insumos fundamentais que essa atividade demandaria, como, por exemplo, a existência de uma estrutura de comunicação minimamente funcional. No mesmo sentido, caberia indagar a quem, legitimamente, cobra uma maior eficiência da polícia judiciária sobre como fazê-lo, se em meio à crise que atravessamos há delegacias de polícia que têm dificuldades de manter uma simples impressora em funcionamento. Exemplos não faltam.

Um outro problema advindo de uma agenda essencialmente teórica é o afastamento criado entre o operador da segurança e os formuladores e especialistas desse campo. É preciso ter em mente que há um destinatário essencial dessas formulações, que precisa, antes de tudo, entender o que lhe é recomendado. Chama atenção para esse descolamento o professor Gary W. Codner, ao descrever um dos problemas encontrados na implementação do modelo de polícia comunitária. Em livre tradução, ele, assim, se posiciona: O policiamento comunitário permanece sendo muitas coisas para muita gente. Uma fala comum entre seus proponentes é ‘o policiamento comunitário é uma filosofia e não um programa’. Uma fala igualmente comum entre os policiais é ‘apenas me diga exatamente o que você quer que eu faça. Cabe ainda frisar que, quando as formulações teóricas não se desdobram em linhas de ação objetivas, elas pouco ou nada se prestam à resolução de problemas práticos do dia a dia.   

É preciso portanto que os formuladores das políticas de segurança pública estejam atentos às particularidades dos atores encarregados de executá-las, tendo em vista que o primeiro passo para chegar em algum lugar é saber onde se está. Para isso é imprescindível procedermos diagnóstico minucioso do exato estado de nossas instituições, ouvindo, sobretudo, aqueles que lidam com as dificuldades do dia a dia. Isso porque, segurança se faz com o olhar no objetivo, mas sempre mantendo os pés no chão.