Populismo e pós-modernidade: Dupla armadilha das democracias contemporâneas

As democracias no Ocidente parecem ter caído numa dupla armadilha.

Por um lado, parcelas significativas do eleitorado, impactadas por mudanças econômicas e tecnológicas que não compreendem, tornam-se presa fácil do simplismo, do populismo, do assistencialismo.

Tal armadilha não tem filiação ideológica. Dela são exemplos Donald Trump nos EUA ou Marine Le Pen na França. Duterte nas Filipinas ou Lula no Brasil. Tampouco é dissipada pelo grau de maturidade dos sistemas políticos. Trump e Le Pen ascenderam em duas das vibrantes e consolidadas democracias no mundo.

Por outro, a própria política parece ter experimentado uma mudança de DNA. O ideal das revoluções democráticas não figura como objetivo último de forças partidárias. Em lugar do universalismo moderno, o particularismo pós-moderno.

Ao redes sociais levam, ao contrário da busca de soluções abrangentes típicas da globalização, a uma “localização”. Há agendas para ruas, distritos, comunidades, mas menos para temas de escala nacional ou mundial.

Em contraste com pressupostos que vingaram no pós-Guerra Fria, como a prevalência da economia de mercado ou da democracia representativa organizada em torno de partidos sustentados por ideários, o momento é de quem foca no particular, no imediato, no local.

Essa tendência é claramente sentida no Poder Executivo, mas também casas legislativas em âmbito municipal ou estadual. Ademais dessa proximidade “epidérmica”, o ar-do-tempo presente também configura a política como arena para o embate entre filiações profissionais ou estéticas.

E assim se multiplicam, na figura do “político”, candidatos representantes dos bombeiros, transsexuais, jogadores de futebol, subcelebridades e apresentadores de televisão.

Para o sociólogo francês Michel Maffesoli, são essas “afinidades estéticas” que conformam as “nuvens” a congregar comunidades no Facebook, Instagram e outras plataformas digitais de ampla disseminação. Aqui, constitui-se campo propício às “Fake News”.

Nessa dinâmica, mídias jornalísticas mais tradicionais são contrapostas pelo que buscam não”informação”, mas “confirmação”. Assim, na política eleitoral, assistimos à diminuição da importância de agendas programáticas e a fabricação de políticos moldados com base em postulados de marketing de empatia.

Essa efemeridade é turbinada, dado seu caráter instantâneo e superficial, pelas redes sociais. Para novos partidos políticos, o reducionismo populista ou as particularidades superficiais da pós-modernidade parecem armadilhas inescapáveis.

No caso brasileiro, no entanto, talvez estejamos em meio a um ciclo que permite escapar de tal armadilha. E isso é uma boa notícia para partidos novos, que devem ademais significar algo além do que somente o “não tradicionalmente político”.

Nada de atalhos populistas ou pós-modernos. Caso queira eleger representantes para governos e parlamentos, um partido novo deve ser um partido clássico — intransigentemente caracterizado como uma agremiação de ideias. E, na prática política, rejeitar populismo, experimentalismo macroeconômico e uma economia de compadrio.

Como este é o trio “mainstream” no país, um tal partido se tornaria uma verdadeira força “outsider”, para que há amplo potencial de acolhida no Brasil.


Professor Marcos Troyjo
Director, BRICLab
Columbia University
mt2792@columbia.edu