O labirinto brasileiro e o longo 2018

O historiador britânico Eric Hobsbawn é autor de uma conhecida formulação que diferencia como se deve contar o tempo.

Uma maneira, claro, é classificar por mensuração cronológica. Aqui, um século equivale a cem anos. Outra é caracterizar um período não pelo critério quantitativo, mas pela identidade do “espírito do tempo” que marca uma certa época.

Assim, o século 19 teria começado em 1789, com o advento da Revolução Francesa, e só acabou em 1914, com o eclodir da Primeira Guerra Mundial. Foi, portanto, um “longo século”.

Já o século 20, por seu turno, teria terminado em 1991, com o desmantelamento da União Soviética. Daí o famoso título de uma de suas obras “Era dos Extremos: o Breve Século 20”.

Michel Temer, atingido há um ano pelas revelações do “JBSgate”, o que lhe congelou a iniciativa, e tendo optado pela intervenção na segurança pública do Rio de Janeiro como bandeira, abriu mão de uma agenda mais reformista no tempo que lhe restava na Presidência.

Nestes últimos meses parecíamos, portanto, caminhar para um “breve 2018”. Inflação sob controle, taxas de juros caindo, governança mais bem administrada das estatais, alguma reforma trabalhista e o estabelecimento de teto para desembolsos do governo.

Ainda que não se trate de agenda que pudesse conduzir Temer a uma imaginada reeleição, ou mesmo turbinar a candidatura de Henrique Meirelles ao Planalto, o conjunto acima mostrou-se suficiente para distanciar o país do abismo. E, assim, colocá-lo numa espécie de inércia até as eleições de outubro.

O “breve 2018” teria já acabado —e 2019 começaria tão logo se conhecesse o resultado das urnas presidenciais.

O ano de 2018, porém, recusa-se a acabar antes do tempo. A greve dos caminhoneiros arremessou o país de volta a um ciclo de acontecimentos de 24 horas em que o inimaginável se converte em possível.

Quem poderia supor que após a série de aulas-magnas dos governos Lula-Dilma sobre os efeitos do intervencionismo na Petrobras mais uma vez nos veríamos abraçados a populismo tarifário ou concessão indevida de subsídios e proteção?

A queda no valor de mercado das ações da Petrobras e o correlato tombo dos índices da Bovespa evidenciam que, se por um lado não estamos na iminência de uma “tempestade perfeita” como nos estertores do governo Dilma, tampouco permanece a trégua entre o Brasil e os mercados. Instala-se agora, na evolução da perspectiva que se tem do país no exterior, uma nova etapa.

Em 2002, com saúde fiscal deteriorada e a possibilidade da eleição de Lula, o risco-país brasileiro atingira 2.500 pontos e o sentimento dominante era a “Brasil-fobia”. Em 2011, após uma expansão do PIB no ano anterior de 7,6%, a sensação era a de “Brasil-mania”. Tivemos, a partir de 2014 uma fase de “Brasil-naúsea”, com as revelações trazidas à tona pela Operação Lava Jato.

Agora, parece que o modelo dominante nas análises externas é o do “Brasil-labirinto”. É a ideia de que, sempre quando o governo brasileiro se vê acuado por uma força que lhe confere a sensação de ameaça e emergência, volta-se ao centro de uma armadilha de que é crescentemente difícil escapar.

A versão mais crítica da análise do tipo “Brasil-labirinto” é a que aponta essa predisposição a ceder a pressões não como algo pontual ou característico deste ou daquele governo a tocar o país, mas como algo estrutural ao próprio ecossistema político brasileiro das últimas décadas.

Em tal hipótese, quando em 2019 o jogo supostamente recomeçar, mesmo um novo governo com apetite reformista e pró-mercado afrouxaria em sua determinação modernizante de modo a permitir “governabilidade” ou o “evitamento do pior”.

Se este for o caso, não sairemos do “Brasil-labirinto” tão cedo. E o ano de 2018, que parecia tão curto, não terá prazo para acabar.

Fonte: “Folha de S. Paulo”, 30/05/2018