Mecanismos Operacionais das Criptomoedas

INTRODUÇÃO

Criado provavelmente por um pequeno grupo de pessoas com o pseudônimo de Satoshi Nakamoto, o Bitcoin foi lançado em janeiro de 2009 após a publicação de um artigo de nove páginas na internet, trazendo consigo uma tecnologia nova, disruptiva, a rede Blockchain. A partir daí, um ecossistema começa a ser criado em torno dessa rede, trazendo desde investidores em carteiras, mineração e na própria criptomoeda, até consumidores e lojas que passaram a aceitar essa nova forma de pagamento.

Mas afinal o que é o Bitcoin? Que ativo é esse? O Bitcoin e sua rede na verdade têm usos múltiplos. Da mesma forma que a energia elétrica pode ser usada para iluminar, transportar e produzir, o ouro pode ser usado como investimento, reserva de valor, enfeite e material empregado na indústria eletrônica, o Bitcoin (e sua rede) pode ser usado como reserva de valor, meio de pagamento, investimento, veículo de remessa, dinheiro, transmissão de herança, registros imutáveis. Assim, pode-se pensar no ativo Bitcoin como o direito de usar essa rede com múltipla utilidade.

Após o lançamento do Bitcoin, entre 2009 e 2014, surgiram outras criptomoedas com características específicas e respectivas Blockchain’s como o Litecoin, Dash e o Dogecoin. Essas criptomoedas são também denominadas altcoins, ou seja, alternativas ao Bitcoin, e podem ser negociadas em diversas bolsas em vários países. Um segundo passo importante na evolução da tecnologia, foi a criação da Blockchain Ethereum em 2014, cujo diferencial foi acoplar uma linguagem de programação à Blockchain, permitindo a criação de contratos programáveis (smart contracts), tornando-se a precursora do surgimento de diversas outras Blockchain’s programáveis e criptomoedas, viabilizando ainda uma nova forma de captação de recursos, os Initial Coin Offerings – ICO’s.

Dado esse contexto, esse artigo se propõe a elucidar esse novo ambiente proporcionando um entendimento básico sobre essa nova classe de ativos, a tecnologia, e potenciais oportunidades.

A TECNOLOGIA BLOCKCHAIN

Uma boa forma de começar a entender a tecnologia é iniciar pelo funcionamento da rede do Bitcoin. Tudo começa pela criptografia das transações a partir da junção de uma chave pública (usada para receber) e uma chave privada (usada para pagar). Ambas as chaves são códigos (QRcode) e quando uma transação é realizada, esses códigos são agrupados incluindo ainda a quantidade de Bitcoins e o momento da transação (time stamp).

Esse grupamento de códigos referente a uma transação é criptografado pelo algoritmo SHA-256 desenvolvido pela agência americana de segurança, gerando uma sequência alfanumérica denominada hash. Esses hash’s são empilhados num formato de árvore de dados em um bloco com tamanho limite de 1 megabyte, seguindo um protocolo pré-definido que também gera um hash no cabeçalho do bloco o qual também tem o código do bloco anterior, formando uma cadeia de blocos de dados.

Quem constrói os blocos de dados, por sua vez, são os agentes ditos mineradores. Além de fazer os blocos, os mineradores disputam entre si quem vai conseguir encaixar primeiro o bloco na rede. Somente um consegue acoplar o bloco a cada intervalo de tempo que é programado para durar 10 minutos em média. E ganha essa corrida o minerador que decifra primeiro um código com uma determinada quantidade de zeros no início, tendo como recompensa uma determinada quantidade de Bitcoins e os fees de transação.

A busca do minerador pelo código com uma sequência de zeros é intensiva em processamento e uso de energia (o consumo de energia da Blockchain do bitcoin é da ordem de 5% do consumo brasileiro) e serve justamente para garantir a segurança da rede, dado que caso algum minerador queira fraudá-la, ele terá que ter uma força computacional (hash power) maior que a do restante da rede, caso contrário torna-se fisicamente inviável.

Existem outras arquiteturas de Blockchains com diferentes formas de consenso. Por exemplo, a Blockchain do Litecoin utiliza outro algoritmo de criptografia e os blocos são feitos em média em dois minutos e meio. A Blockchain do Dash por sua vez, além da mineração, tem um mecanismo de votação via os chamados master nodes para acelerar as transações.

BLOCKCHAIN: FUNDAMENTOS DA MUDANÇA

Pensar no potencial de aplicação da tecnologia Blockchain é pensar no futuro. A natureza fundamental das Blockchains está associada a uma lógica de rede e quanto maior, mais inclusiva ela for, maiores as externalidades desta rede e o potencial de incentivos para geração de aplicações novas.

Embora a Blockchain tenha nascido a partir do conceito de uma criptomoeda específica (Bitcoin), ela pode ser utilizada para uma diversidade de aplicações que vão desde transações imobiliárias até registros governamentais. Sua grande vantagem advém do fato de manter cópias dos registros de transações distribuídas em diversos pontos do mundo, garantindo a segurança e permitindo assim que ativos representados em formatos de criptomoedas (ou tokens) possam ser transferidos e registrados sem uma verificação externa.

Também é possível observar a questão fundamental que está sendo solucionada com a tecnologia de Blockchain. Podemos defini-la como um novo protocolo de troca de valor que cria uma espécie de nova camada na internet, simplificando e globalizando a capacidade de realizar transações entre pares distantes.

De forma análoga, se os protocolos de comunicação da internet alteraram profundamente os custos de distribuição da informação, os protocolos baseados na tecnologia de Blockchain estão alterando a estrutura de custos de transações. Isso inclui transações entre partes remotas, desconhecidas, transações assíncronas, transmissão de valor, registro de transações e de informações de maneira que sejam imutáveis e seguras. Trata-se do nascimento de um sistema que está apto a avaliar regras sem a intervenção humana e transmitir confiança sem precisar depositar esta confiança em um agente humano diretamente envolvido no processo de transação.

Se uma nova transação é criada entre duas partes, qualquer agente da rede pode validar esta transação de forma independente, mesmo sem conhecer previamente as partes envolvidas na transação ou ter que perguntar para alguém que conheça. Isso é possível porque cada agente mantém permanentemente atualizada localmente uma cópia de todo o livro de registro de transações digitais previamente validadas pela rede – uma espécie de cópia atualizada da "verdade" ou consenso em relação aos eventos de transações passadas.

Entender as potencialidades de aplicação da tecnologia de Blockchain é tentar entender seu impacto em diversas áreas como comércio, identidade, governança, organizações, filantropia, educação, além de verticais de mercado como seguros, bancos, entretenimento, dentre muitas outras. Qualquer área, setor, mercado que apresenta custos de transação relevantes deve ser impactado pela tecnologia Blockchain.

CRIPTOMOEDAS E A REPRESENTAÇÃO DIGITAL DE ATIVOS (“TOKENIZAÇÃO”)

Um elemento chave para a transferência de ativos em uma rede de Blockchain é a alocação de uma identidade digital única para cada ativo. Este processo de criação de tokens está sendo chamado de “tokenização” (tokenization) e alguns protocolos estão sendo desenvolvidos para isso, sendo eles vitais para a contabilização destes ativos e prevenção de duplicidades tanto no gasto quanto no registro dos mesmos.

Praticamente qualquer ativo físico ou digital pode ser tokenizado. O protocolo da Blockchain usa hashes criptográficos para gerar números identificadores únicos que servem como um token para identificar ativos, tornando-os únicos e passíveis de participação em operações de troca, por exemplo, compra e venda.

Assim, um token ao representar qualquer ativo, também pode ser caracterizado como uma criptomoeda.
Dessa forma, existem criptomoedas que representam ações, quotas de fundos, commodities, utilidades como
energia, e até mesmo moeda fiduciária. Já as criptomoedas associadas às Blockchain podem ser chamadas de
tokens nativos (ex: Bitcoin, Litecoin e Ethereum).

INVESTIMENTOS EM CRIPTOMOEDAS

É importante destacar que o investimento em criptomoedas, especialmente nos tokens nativos, requer quase conheça minimamente suas características, potencialidades e riscos. Cabe mencionar que são investimentos de risco, pois são ativos intangível intensivos relacionados a uma tecnologia nova, com enormes potencialidades, contudo, com o desafio da escalabilidade.

Os tokens nativos apresentam diferenças importantes quando se trata de investimento. O Bitcoin e o Litecoin, por exemplo, são deflacionários, ou seja, são emitidos de uma forma determinística seguindo uma curva de geração, caracterizando edições limitadas. Existirão 21 milhões de Bitcoins e 84 milhões de Litecoins, praticamente todos emitidos até 2040. O Ether, por sua vez, é ilimitado e carrega o valor de representar a principal Blockchain programável.

BLOCKCHAIN: QUEBRANDO PARADIGMAS

Estamos vivendo uma tremenda quebra de paradigma no sentido da redução de custos de transação, e valorização do indivíduo enquanto agente que produz e cria valor. Adicionalmente, diversas aplicações com o uso de Blockchain são vislumbradas a fim de tornar o setor público mais eficiente, sendo boa parte delas também se constituindo em sistemas anticorrupção. Detalharemos tais aplicações aqui em textos futuros.