Educação: sejamos práticos e racionais

“Havia um arquiteto engenhosíssimo, inventor de um novo método de construção de casas, que começava pelo teto e acabava pelos alicerces”, relata Lemuel Gulliver em uma das suas extraordinárias viagens, no romance satírico As Viagens de Gulliver de Jonathan Swift, um clássico da literatura inglesa. Nesse país fictício, criado pela imaginação de Swift para criticar a sociedade do seu tempo, a ciência adotada ignora a prática e expressivos recursos são gastos em projetos completamente absurdos. Lá os cientistas e burocratas, distantes da realidade, atrapalham e sufocam a sociedade.

Parece familiar? Ao ler este trecho inicial, não seria absurdo sugerir que Gulliver estava se referindo ao Brasil. Afinal, são inúmeros os casos em que os nossos governantes ignoram a realidade e propõem projetos absurdos e sistemas fadados ao fracasso e ao desperdício. Como é o caso, por exemplo, do sistema educacional brasileiro que, em descompasso com a realidade e o bom senso, segue tentando construir a casa a partir do teto e não dos seus alicerces, segue investindo parcela considerável dos seus recursos no ensino superior enquanto o ensino básico mingua e não avança.

A verdade é que temos um sistema educacional em colapso, incapaz de fornecer aos nossos jovens as ferramentas e as oportunidades mais elementares para que eles possam participar com dignidade e protagonismo de uma sociedade que avança em passo acelerado, na qual o conhecimento não é mais algo desejável, mas algo necessário. Somos incapazes de oferecer o básico e, ainda assim, insistimos em inverter a ordem das coisas e ignorar o fato, líquido e certo, de que só teremos uma casa segura e resistente se construirmos, em primeiro lugar, alicerces sólidos. É preciso repensar todo o sistema, redefinir prioridades e investir os recursos de maneira racional e eficiente.

Para tanto, o primeiro passo, aquele mais importante, que fará a diferença, pois provocará todas as demais mudanças, é um convencimento verdadeiro da sociedade brasileira acerca da importância da educação e do conhecimento. Há investimento, há discurso, há uma rede de ensino, mas ainda nos falta um genuíno amor ao saber. Quando uma sociedade consegue criar uma forte cultura de valorização da educação, quando os pais e mães transmitem para os filhos desde cedo a importância do conhecimento, todas as dificuldades são superadas e resultados incríveis são alcançados.

A educação é importante demais para delegarmos exclusivamente ao governo. Ela demanda um esforço de todos. Os pais precisam acompanhar os seus filhos e participar da rotina das escolas, precisam estimular a leitura, destacar a importância do conhecimento e cobrar dos seus representantes políticos melhores soluções para os problemas do nosso sistema educacional. Os professores e pedagogos precisam receber respaldo e apoio da comunidade, precisam de melhores condições de trabalho e precisam repensar, inovar e reformular as metodologias de ensino, com foco nas necessidades e desafios da sociedade contemporânea. A sociedade civil precisa incentivar mudanças, propor soluções e apoiar iniciativas inovadoras, precisa usar as suas organizações para cobrar os governantes, fiscalizar o seu trabalho e medir a evolução dos projetos.

Não é uma tarefa fácil, mas é o que realmente muda o jogo e garante um processo contínuo e ininterrupto de evolução. De qualquer forma, além dessa mudança cultural, mais ampla e demorada, algumas medidas podem e devem ser tomadas de imediato pelos nossos governantes. Cito aqui algumas delas: i) Dar prioridade total ao ensino fundamental, pois é este o momento mais importante no processo de aprendizagem, onde a criança recebe as ferramentas básicas que irão viabilizar a busca por novos conhecimentos. É este o alicerce que sustenta todo o restante da construção, sem ele os esforços subsequentes serão prejudicados e não se sustentarão. ii) Instituir um sistema permanente e rigoroso de medição e comparação de resultados, com o objetivo de identificar as melhores práticas, replicar os bons exemplos e corrigir o rumo nos casos de insucesso. iii) Criar um sistema de acompanhamento detalhado dos gastos com educação, apurando com rigor todos os custos envolvidos, de cada unidade educacional, de cada aluno da rede pública, transmitindo esses dados com clareza para a população e buscando constantemente maior eficiência. iv) Oferecer aos pais de baixa renda a opção de matricular seus filhos na rede pública ou receber um vale-escola para matricula-los na rede privada, colocando em suas mãos o poder de escolha e criando incentivos positivos para a evolução do sistema. v) Extinguir a gratuidade universal das universidades públicas. Hoje, expressivos recursos públicos, dinheiro que falta em áreas sensíveis, são destinados para pessoas que tem condições de pagar por cursos universitários. Isso não é justo e precisa mudar. Quem tem condições financeiras deve pagar pelo seu curso. E quem não tem pode contar com um sistema de financiamento e bolsas; vi) Incentivar o ensino técnico, especialmente em áreas como serviços e tecnologia, preparando os jovens para o mercado de trabalho e explorando novos meios de transmitir conhecimento como o ensino à distância.

A lista acima, evidentemente, não é exaustiva. Muitas outras ações são necessárias para criar um sistema educacional eficiente, que prepare e dê oportunidade para as nossas crianças, que nos faça sentir orgulho e confiança em um futuro melhor. Um bom começo para isso é entender a sátira de Swift e finalmente desistir de construir a casa começando pelo teto. Sejamos práticos e racionais. Sejamos capazes de definir prioridades, estabelecer e medir resultados, repensar e inovar a forma como educamos os nossos filhos.