A Força do Campo

Há 11.000 anos teve início uma revolução que transformou o mundo e a maneira como nós, homo sapiens, vivemos: a revolução agrícola. Até então, os seres humanos viviam em pequenos bandos e se alimentavam apenas com o que conseguiam caçar ou coletar. Nesse período, porém, nossos antepassados desenvolveram técnicas para cultivar cereais e domesticar animais. A partir daí tudo mudou, com maior abundância de comida, o homem passou a viver em grupos maiores, vilarejos foram formados, cidades foram construídas, reinos foram fundados.

De lá para cá, muitas mudanças ocorreram, mas a atividade agropecuária sempre manteve a sua importância e a sua posição como motor do progresso humano. Assim foi e assim sempre será por um motivo muito simples, nossos corpos precisam ser alimentados todos os dias.

Desde a revolução agrícola, o avanço da humanidade está associado ao avanço do campo. O século XXI não estaria prestes a registrar uma população de 8 bilhões de seres humanos se agricultura e pecuária não tivessem acompanhado as inovações na mecânica, na química, na genética, na tecnologia da informação.

Sim, é verdade, nos últimos 250 anos, a fatia que o setor primário representa no PIB e a população que vive no campo diminuiu em todo mundo. Atualmente, no Brasil, cerca de 85% da população vive nas cidades. Isso explica, em parte, a pouca atenção que os formuladores de políticas públicas e a grande mídia dão para o setor.

No entanto, a atividade rural sempre será estratégica, fundamental para a nossa existência e para o nosso progresso enquanto sociedade. O mundo, a cada dia que passa, precisa de mais comida. A população mundial segue aumentando a passos largos e nós temos um desafio enorme pela frente: fazer com que todo ser humano tenha uma alimentação adequada e digna.

A expectativa da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) é que a demanda por alimentos aumente 20% em apenas 10 anos. Nosso país, todos sabem, tem um potencial extraordinário nesse setor e poderia alimentar ¼ da humanidade usando menos de 2% da superfície do planeta. A verdade é que o Brasil pode e deve liderar o mundo quando o assunto é agricultura e pecuária. Já somos um dos grandes produtores mundiais, mas podemos avançar ainda mais. Temos as terras e temos as pessoas, nos faltam as instituições. A providência nos deu campos férteis e diversificados. O trabalho duro de homens e mulheres fez esses campos produzir cada vez mais, safra após safra. Agora, para continuar avançando e atingir o máximo do nosso potencial, é necessário que os nossos legisladores e governantes não atrapalhem aqueles que empreendem e trabalham no campo. Para isso acontecer, precisamos, em linhas gerais, do seguinte:

1) Renovação política: Uma nova forma de fazer política, com boas ideias defendidas por pessoas que sabem o valor do trabalho, têm valores éticos sólidos e sonham com um país melhor. Isso é o que vai fazer a diferença, é preciso identificar essas pessoas e elegê-las na próxima eleição.

2) Segurança jurídica: Leis e tribunais devem proteger o cumprimento dos contratos e o direito de propriedade, chega de relativizar e enfraquecer esses institutos, tolerando descumprimentos contratuais e invasões de terras, o Estado deve ser rigoroso e eficiente para construir uma sociedade de confiança.

3) Simplificação legislativa: As leis e os procedimentos devem ser mais simples e claros, especialmente em matéria ambiental, tributária, trabalhista e registral. Hoje em dia, atender todas as normas e exigências do Poder Público é tarefa das mais difíceis. Tanto é que, muitas vezes, mesmo com boa-fé, o cidadão acaba sendo penalizado por um detalhe que lhe passou despercebido. A tarefa do legislador é se certificar que as leis sejam poucas, claras, simples, objetivas e impessoais.

4) Investimento em infraestrutura: O Brasil é extremamente eficiente da porteira para dentro, mas muito ineficiente da porteira para fora. O produtor rural investe em sua propriedade, aprimora as técnicas de cultivo e alcança altos índices de produtividade, mas a infraestrutura do país deixa muito a desejar. Carência de diversificação dos modais de transporte, dependência de um precário transporte rodoviário e insuficiente acesso à energia elétrica são exemplos de gargalos que precisam ser enfrentados.

5) Ampliação de mercados: Manter os mercados já conquistados e buscar novos é essencial para o fortalecimento do agronegócio brasileiro. Temos todas as condições de ser o grande provedor de alimentos do mundo, para isso, além dos investimentos e ajustes internos, precisamos atuar com seriedade e ousadia no mercado internacional.

6) Empreendedorismo e inovação: Soltar as amarras burocráticas, tornar fácil e simples o empreendimento rural, estimular a pesquisa e a inovação no campo são iniciativas fundamentais e precisam da atenção dos nossos legisladores.

Nosso setor primário já é referência. Nosso sucesso econômico já está atrelado ao campo. Não há dúvida, nosso futuro será mais próspero se formos capazes de dar melhores condições para o homem do campo trabalhar e fazer o seu negócio florescer. Quando o campo avança, todos avançam.

Vinicius Poit, 32 anos, é formado em Administração de Empresas na EAESP – FGV e pós-graduado em Coaching, pela Sociedade Brasileira de Coaching. Fundou, ao lado de outros colegas, o Recruta Simples, plataforma online de recrutamento rápido. É embaixador do Brazil Lab e mentor da Endeavor, instituto que apoia o empreendedorismo de alto impacto. Passou grande parte da infância no Noroeste de São Paulo e acredita na desburocratização e na melhoria da eficiência no escoamento dos produtos para fortalecimento do país.